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Os mitos e a psicanálise

Os mitos e a psicanálise

Na esteira do último jornal da Febrapsi, publicado em dezembro de 2014, encontramos alguns artigos sobre mitologia e psicanálise, dentre eles, a entrevista com a jornalista Maria Cristina Franciscato, “Apolo e Dioniso na contemporaneidade”, onde a entrevistada destaca características peculiares de cada um destes deuses. Por esta razão, pensei em abordar, ainda que, superficialmente o tema do uso do mito na psicanálise hoje.

Freud tinha grande conhecimento sobre cultura helênica e o idioma grego, tanto que um conceito central de sua obra, o complexo de Édipo, é inspirado na tragédia Édipo Rei de Sófocles. O narcisismo, enquanto etapa de desenvolvimento em direção às relações do objeto, também revela a proximidade de Freud com a mitologia grega, com o mito de Narciso, assim como podemos assinalar a presença de vários outros mitos em sua vasta obra.

Freud esteve tão voltado para a cultura grega que não pode dirigir seu olhar para o cinema, arte que estava iniciando sua trajetória nos primórdios do século XX, nem, tampouco, ao Surrealismo, movimento na arte que nomeava a presença do inconsciente como tema de muitas de suas obras. Anos depois, Bion colocou os mitos mais uma vez em uma posição de destaque no pensamento da Psicanálise sobre a mente humana. Considerou-os como uma versão social do sonho de cada indivíduo: se o sonho individual expressa o mito de cada um , o mito é o sonho do grupo. Nele, as experiências emocionais transformadas pela função alfa formam elementos que, conjugados e reunidos na narrativa da história, adquirem coerência e integração, possibilitando seu armazenamento e uso como o registro de uma realização. Assim, o mito incorpora tanto a dimensão do imaginário como a da realidade, do concreto e do abstrato.

Na clínica, os mitos podem ser usados como modelos, ferramenta para representar e interpretar problemas humanos, desde que se possa considerar que eles não são absolutos, mas permitem vários vértices possíveis de compreensão. Quando pensamos em Apolo, Dioniso, Palas Atena, Erínias, Tântalo, Prometeu, Procusto e tantos outros, estamos falando de dimensões do psiquismo humano, presentes no dia da dia do nosso trabalho. Podemos, por exemplo, pensar em Apolo e Dioniso representando características opostas do psiquismo. Enquanto Apolo nos remete à dimensão da medida, do ritmo, da harmonia que organiza o caos do cosmos, Dioniso rompe com tais parâmetros introduzindo a desmedida, o êxtase e a selvageria que rompendo com o conhecido e ordenado podem, por outro lado, introduzir o novo. Se ordem e medida são contornos necessários ao desenvolvimento da mente, podem se transformar em padrões repetitivos e obsoletos caso não possa emergir o novo que desorganiza, mas traz transformações e crescimento. Aliás, esta alternância constante entre o caos e a formação de uma configuração determinada está presente no pensamento de Bion sobre a evolução da mente humana.

Para expandir, o psíquico deveria estar em oscilação constante entre posição esquizoparanóide e posição depressiva e não eleger a apolínea e exemplar posição depressiva como a condição de mente desejada, a ser alcançada permanentemente, como pensava Melanie Klein.

Entre as muitas características atribuídas a Palas Atena, está o fato de ter nascido da cabeça de seu pai, Zeus. Suas afinidades com a filosofia, com a música e a poesia remetem tanto à inspiração como à arte. Na Odisséia de Homero, a deusa surge para o jovem Telêmaco, filho de Ulisses e de Penélope, disfarçada em um personagem que tem o nome de Mentes. É interessante observar que ela surge, incitando o jovem a sair em busca do pai para que Ulisses regresse ao lar após longos anos de ausência. Parece que representa o aspecto do mental, do pensamento novo e inspirador destinado a originar uma ação que pode mudar o rumo de uma situação fechada, estabelecida.

Dentro da temática do castigo, encontramos vários mitos que podem ser usados como modelos para serem comunicados sobre os estados de mente das pessoas que nos procuram. As Erínias são as furiosas deusas que castigam as faltas cometidas contra a família, contra a ordem social, como um superego assassino e cruel, pré-edípico, que tortura e enlouquece. Entretanto, as Erínias apresentam uma faceta diversa. Podem ser também chamadas de Eumênides ou Benevolentes, representando o superego freudiano, fruto da elaboração do Complexo de Édipo, que funciona como dimensão protetora e organizadora da personalidade, estabelecendo, por exemplo, a diferença das gerações. Quantos dos nossos pacientes estão enredados em situações de uma autocrítica tão severa que não lhes possibilita ver suas vidas sob um vértice diferente do erro que os esmaga, enquanto outros podem viver de forma mais amena, sem ficarem sob o alvo de uma crítica interna avassaladora?

Temos Tântalo que por ter oferecido seu filho como alimento aos deuses foi condenado a agonia de uma fome e sede intermináveis: mergulhado nas águas até o pescoço não podia beber, pois sempre que tentava saciar sua sede, as águas recuavam ficando fora de seu alcance. Um ramo com frutas aproximava-se dele e quando Tântalo arriscava-se a pegar uma delas, o ramo encolhia, afastando-se. O dramático suplício de Tântalo surge em nosso trabalho com aqueles pacientes que vivem a condição de sentir que nunca conseguem atingir o que desejam, mantendo-se em um estado de extrema penúria. Considerado por algumas versões míticas o criador dos primeiros homens que moldou do barro e por outras como sendo apenas benfeitor da humanidade, Prometeu enganou Zeus, desafiando sua ira quando deu o fogo aos humanos. Acorrentado no alto de um morro tinha seu fígado comido por uma águia enquanto o órgão se renovava constantemente, o que o mantinha numa tortura perene. O domínio do fogo era exclusivo dos deuses, um conhecimento que não era compartilhado com os humanos. Nesse sentido, podemos pensar como a busca do conhecimento em determinadas configurações mentais pode ser vivida como uma arrogante ousadia a ser proibida e castigada. Por fim, temos Procusto e suas características servem de advertência aos psicoterapeutas. Procusto tinha duas camas para oferecer aos viajantes, uma grande e outra pequena. Obrigava os homens altos a deitar no leito pequeno, cortando seus pés para que nele coubessem e os pequenos eram colocados na cama grande e esticados até que preenchessem o espaço. Assim, os terapeutas correm o risco de colocar seus pacientes em suas teorias, rotulando-os prematuramente, atribuindo-lhes aspectos que não lhe cabem, deixando-os viver mais uma vez, quem sabe, a dor de não serem alcançados e compreendidos.

Referências

Bion, W.R. (2000). Cogitações. Rio de Janeiro: Imago Editora (Trabalho original publicado em 1992).

Grimal, P. (2005). Dicionário da mitologia grega e romana. 5 ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil

Jornal da Federação Brasileira de Psicanálise. N. 53. Rio de Janeiro, dezembro de 2014.

Prof.ª Lidia Neves Campanelli

Docente do curso de Pós-graduação em Psicoterapias de Abordagem Psicanalítica

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